Skip to content

Censura

Março 16, 2011

Nunca gostei do conceito de censura. Primeiro por todas as histórias que ouvia dos meus avós e dos meus pais sobre os tempos da ditadura. É-me impossível pensar em censura sem me lembrar que fazia parte de todo um aparelho cujo propósito era controlar, filtrar e manipular informação. Segundo por experiência própria porque a censura ainda está entre nós, escondida por detrás da façada da vivência numa sociedade justa e democrática.

Dou-vos já um exemplo: a manifestação do passado dia 12 de Março de 2011. Eu estive no meio de uma multidão que enchia, passeios e estátuas e ruazinhas secundárias incluídas, o caminho todo desde o Marquês até ao Rossio. Tudo cheio de pessoas, de cartazes, palavras de ordem, música. E que cobertura mediática recebeu? Onde estão os analistas políticos? Os paineis de análise nos canais ditos “de notícias”? Onde estão os políticos a acotovelarem-se para darem o ar da sua graça no jornal das oito? Onde estão as imagens aéreas de uma multidão que encheu avenidas, ruas e praças?

Quem lá esteve, e tem idade para isso, disse que não via nada do género desde o 25 de Abril. Duzentas mil pessoas marcharam durante pelo menos quatro horas em Lisboa e entregaram as bem-fadadas folhas com a razão do seu descontentamento e as suas soluções. E foi um movimento laico, apartidário, com direita e esquerda ombro-a-ombro porque a crise morde todos independentemente de em quem votam.

O que os meios de comunicação social fizeram foi, aparentemente, usar nada mais que planos fechados, minimizar o impacto do protesto e apressarem-se a encher o tempo com futebol para entreter as massas e desastres alheios para mostrar que as coisas podiam ser ainda piores por isso o melhor é uma pessoa não se queixar.

Censurar não é só apagar. Modular, total ou parcialmente os factos, é também censura. Mas omitir ou distorcer os factos tem um nome: mentir.

Censurar é mentir.

Quando não nos mostram imagens de uma guerra porque é “demasiado chocante”, é censura. E é mentir, porque estas coisas aconteceram –  e uma coisa é a opção pessoal de não querer ver e outra é retirar essa escolha ao simplesmente omitir informação de raiz.

E há alguma justificação para a censura? Acho que não. O mundo em que vivemos é o mundo em que vivemos. Os factos são os factos. Se são desagradáveis, se ferem as nossas sensibilidades, se nos ofendem, então temos de reconhecer isso e mudar as coisas. Censura é inútil (cada vez mais num mundo onde a informação é mais e mais fácil de transmitir) quer por parte de quem a escolhe quer de quem a impõe. É varrer o pó para debaixo do tapete, fingir que está tudo bem enquanto os problemas se agravam mais e mais.

Anúncios
2 comentários leave one →
  1. Daniela Vitorino permalink
    Março 16, 2011 9:56 pm

    Ola Luis. Foi engraçado hoje termos tocado levemente no assunto “censura” e ser mesmo o tema actual do teu blogue. Concordo com a generalidade de coisas que dizes, mas não posso deixar de discurdar quando dizes que a manifestação de dia 12 de Março não teve a cobertura dos meios de comunicação social justa/suficiente. Eu não pude ir à manifestação porque faço parte desta geração à rasca e tive a trabalhar (pela minha independência), mas fiquei muito satisfeita com todas as notícias que sairam nos telejornais e nos canais só de noticiários. Com esta manifestação pacífica e alegre mostrámos ser uma geração de luta, que não baixa os braços perante as atrocidades políticas que a geração 60/70 tem feito – eles, aos poucos, destroem o nosso futuro profissional e, pior que isso, a esperança nesse futuro. Não tentam sequer “fingir” aplicar medidas que possam favorecer a entrada e a fixação de jovens no mercado de trabalho… Para essa geração basta dizer: “Têm que se esforçar mais”, “Têm que ser melhores”, “Têm que aceitar o que vos aparecer” e eu até concordo com isto, mas isto deve nascer da nossa própria vontade e não ser fruto de imposições político-profissionais de homens/mulheres que nasceram em famílias privilegiadas e hoje têm tudo o que querem porque, na altura deles, com tanta gente ainda a passar fome, não havia dinheiro para todos irem à faculdade – então esses, destacaram-se! Então é esta a resposta desta gente de vida facilitada? “Esforçem-se mais”? Tipo “Lutámos para aumentar a igualdade de acesso ao ensino superior, agora que todos – ou quase todos- se podem licenciar desenrrasquem-se” !? Esquecem-se, estas pessoas, que o acesso ao trabalho é, neste momento, ainda mais limitado do que o acesso ao ensino superior na altura deles. Esquecem-se que não só licenciados como não licenciados, jovens, lutam 1ano ou mais para terem 1oportunidade(e não um trabalho) no mercado de trabalho… Fico feliz por ter 1trabalho mas fico triste com estes políticos. Bem-hajas!

Trackbacks

  1. Frágeis Expectativas « Fractalicioso

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: