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Frágeis Expectativas

Setembro 28, 2011

Escrevi há tempos sobre censura e desde então tenho pensado mais a fundo sobre a natureza da informação em si. Cito-me ao dizer que “Censurar não é só apagar. Modular, total ou parcialmente os factos, é também censura[.]” mas agora coloco uma questão: será possível transmitir, ou sequer adquirir, informação sem a modular? E o que é informação?

Poder-se-ia dizer que informação são factos, puro e duros, mas sem um observador para os constatar, não existe informação. É dizer que se uma árvore cai na floresta, a energia cinética do impacto com o chão perturba o ar à sua volta, criando um distúrbio das moléculas e átomos que, se ali estivesse um ser humano, seriam captadas pelo seu ouvido interno e, uma vez interpretadas pelo córtex auditivo, seriam identificadas como o som de uma árvore a cair. Esse ser humano estaria então informado de que tinha caído uma árvore na floresta. Mas sem lá estar alguém, é como se a árvore nunca tivesse caído – não existe informação porque ninguém está ciente dela.

Esta dependência do aparelho cognitivo humano significa que toda a informação está sujeita, para existir sequer, aos caprichos do observador, aos seus preconceitos e juízos já formados quanto ao mundo que o rodeia.

Voltemos então ao exemplo do ser humano (chamemos-lhe Inácio) que estava na floresta, fazendo sabe-se lá o quê, quando ouviu uma árvore a cair. Inácio ouviu algo e o seu cérebro diz-lhe “Inácio, isto soa-me a uma árvore a cair. Digo isto porque já ter ouvido o meu quinhão de árvores a cair no meu tempo e porque estamos numa floresta”. Mas Inácio não confirmou por outras fontes (ir até à árvore, vê-la, tocar-lhe, etc) que tinha realmente caído uma árvore. Para mais, Inácio olha à sua volta, vê pinheiros, e pensa: “Epá, deve ter sido um pinheiro velho que caiu”. Quando chega a casa, Inácio vira-se para o amigo, Teodoro, e diz-lhe “Vê lá, pá. Tava na floresta e ouvi um pinheiro a cair. Devia ser enorme porque pregou-me um cagáço de morte!”.

E se a verdade era que uma equipa de carpinteiros numa oficina na floresta estava a construir uma balsa quando o suporte rachou e a embarcação caiu? Era impossível Inácio saber isso. O seu aparelho auditivo captou algo e a sua mente interpretou-a, não enquanto “som de madeira a embater no solo” mas “pinheiro velho que caiu”. O ambiente, a educação e o passado de Inácio influenciaram de forma total e derradeira a informação sensorial que captou, tecendo imediatamente a narrativa mais plausível a partir de uma quantidade minúscula de estímulo.

Mas o que interessa que Inácio esteja enganado? Interessa porque, como diz o povo, quem conta um conto acrescenta um ponto, e todos nós acrescentamos inúmeros pontos. Toda a informação que nos chega, quer em primeira quer em segunda-mão, é manipulada e decorada pela mente humana, dada contexto e plausibilidade de tal ordem que até nos esquecemos que foi inferida e acabamos por acreditar ser verdade.

Quanto mais complexo o estímulo, mais emaranhada a informação que recebemos, pior. Aplainamos tudo, simplificamos. Passamos o ferro de engomar da experiência, dedução, preguiça e medo pelas rugas do complexo, do incompreensível.

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