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Cintos

Outubro 26, 2011

“Não tens nada para comer em casa? Nem um iogurte?”

São palavras que oiço, sem querer, de um homem como qualquer outro que numa mão carrega o Diário Económico e na outra um velhinho telemóvel NOKIA. Era através desse pequeno aparelho que conversava com, pelo que percebi, a filha de tenra idade. Silencioso, o Diário Económico estava encravado numa página onde um ex-chefão do FMI dizia que a austeridade era o caminho a seguir. Ou então não. O título e o subtítulo pareciam contraditórios.

Mais detalhes só especulando e por isso viro-me agora para algo concreto: estou farto de ver burocratas agarrados a tachos bem-lambidos e a dizer ao Zé Povinho que é preciso apertar mais o cinto. Gente com reformas (plural), subvenções, cargos de chefias e mordomías inumeráveis que têm a lata de ditar, esparramados no seu luxo quais paxás, que há que tirar comida da boca do povo para endireitar a economía. Que ousam exigir mais sacrificios enquanto usufruem de beneces como subsídios por terem o “lar” fora de Lisboa enquanto possuem casas perfeitamente boas na capital.

Ainda alguém se lembra do Passos Coelho andar a dizer que ia cortar nas “gorduras do Estado”? Eu sempre assumi, ingénuo, que se referisse às contas desalinhadas, às fundações privadas alimentadas com dinheiros públicos, às infinitas mordomias dos deputados e membros do governo, às dívidas privadas assumidas pelo Estado, quer para ajudar bancos quer através da desastrosa ideia das PPP, ou algo do género. Mas não. Afinal as “gorduras” são os subsídios, as reformas míseras, o IVA tão baixinho para tanta coisa ou o preço dos transportes.

Mais alguém apanhou aquela comentadora horrorosa na SICN a dizer que se devia acabar com os subsídios de natal e de férias de vez, distribuindo os valores por 12 ordenados? De acordo com a senhora, os subsídios de férias e natal acabavam por ser usados para pagar contas em atraso, comprar este ou aquele electrodoméstico, etc.

Mas esta senhora esquece-se que esses não são os propósitos dos subsídios de férias e de natal. A razão destes subsídios é permitir ao trabalhador descansar, de realmente ter férias ou um natal. O facto de serem utilizados para complementar as receitas familiares é um sintoma de que o ordenado, por si só, não chega. Que com os rendimentos que têm, uma família não consegue fazer uma vida descansada, com qualidade.

Pegar nos putos e levá-los a passar um par de dias ao estrangeiro ou uma semana num ponto mais agradável de Portugal não é um luxo. Poder descansar depois de meses a dar o litro todos os dias não é um luxo. Poder ter um natal com umas prendas, um belo bacalhau e uns pratos de rabanadas e filhoses não é um luxo. É suposto trabalharmos para viver, não vivermos para trabalhar!

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